Depois de quase 23 anos, projeto desenvolvido pela Prolagos tem resultado
Por: Ana Beatriz Rangel, Ariane Viana, Radija Nathalia e Virgínia Carvalho
A Laguna de Araruama, maior massa de água hipersalina em estado permanente no mundo, por anos foi um dos principais locais de despejos de esgoto da Região dos Lagos, o que afastava os banhistas, prejudicava a pesca e interferia na saúde do ecossistema marinho. Durante o período de pandemia, as medidas de proteção contra a Covid-19 reduziram a quantidade de turistas nas cidades que rodeiam a lagoa e restringiram a produção de lixo nas altas temporadas, auxiliando diretamente no processo de restauração das águas.
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A melhoria da qualidade ambiental da Lagoa de Araruama pode auxiliar em todos os setores da sociedade. Reprodução: Karina Fonseca
De acordo com a diretora do Instituto de Pesquisa e Educação para Desenvolvimento Sustentável (IPEDS) e criadora do consórcio responsável pelo tratamento da lagoa, Rosa Mansun, o primeiro passo para restaurar as condições ambientais das águas foi modificar o contrato de concessão de esgoto das prefeituras que cercam a região e antecipar os investimentos para a despoluição. Até os anos 2000, as cidades não possuíam estações de tratamento,despejando esgoto diretamente no mar.
“O maior desafio da despoluição da lagoa foi o fato de as cidades já estarem construídas, 400 anos jogando esgoto e resto de salinas, e começar um trabalho entre 2000 e 2005, quando ninguém acreditava que daria certo, mas nós acreditamos”, explica Rosa.
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Rosa esclarece que a captação dos canais de água pluvial através do cinturão, a instalação de estação de tratamento e a dragagem foram as principais medidas para alcançar a restauração da laguna. Reprodução: Arquivo pessoal
O projeto de despoluição efetuado pela Prolagos, concessionária responsável por serviços de saneamento básico na Região dos Lagos, durou mais de 15 anos e somente após uma série de tratamentos conseguiu alterar a qualidade das águas que rodeiam os municípios. Durante esse tempo, foi implementado o sistema de Coleta a Tempo Seco, intercepções que transportam o esgoto a Estações de Tratamento, evitando o despejo em áreas naturais.
Cléber Mota, biólogo especializado em Desenvolvimento Sustentável, explica que a vida marinha da lagoa ainda não foi completamente recuperada, mas já é possível encontrar espécies de pescados que estavam sumidas, como a Carapeba e a Perumbeba. O biólogo enfatiza que há um excelente avanço na infraestrutura de esgotamento, que atualmente trata em média 90 milhões de litros por dia, e está esperançoso para os resultados futuros.
“Creio que o objetivo é avançar ainda mais com construção de elevatórias, recuperar, ampliar e construir novas estações de tratamento”, diz Cléber.
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Cléber esclarece que quanto maior a quantidade de dejetos despejada nos oceanos, menor é o desenvolvimento das espécies marinhas. Reprodução: Arquivo Pessoal
A estudante Karina Fonseca mora há 11 anos em Araruama e conta que, com o desenvolvimento da cidade e a entrada de turistas, as águas passaram a ter um mau cheiro e não eram tão limpas. No entanto, com o início da pandemia e a restrição no fluxo de pessoas, percebeu mudanças significativas nas áreas que contornam a laguna, como o aumento de atividades físicas e até a presença de banhistas.
"Quando a lagoa estava poluída, era difícil termos essa diversidade e frequência de atividades sendo realizadas. Não havia o Catamarã, a pesca foi afetada, e as atividades na areia não eram tão frequentadas. Agora, com a lagoa e orla revitalizadas, é possível termos um público mais ativo fisicamente e ser um ponto de lazer e turismo na cidade”, explica Karina.
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Karina conta que o Kitesurf, o pedalinho e o Stand Up são algumas das práticas realizadas na lagoa. Reprodução: Arquivo pessoal
Marcos Costa, de 55 anos, conta que atualmente uma parte da sua renda mensal vem da pesca. Com a chegada da pandemia, o pescador notou uma melhora significativa na qualidade da água e até o aparecimento de novas espécies marinhas. “A lagoa melhorou sensivelmente, acredito que mais em função da pandemia, com o pouco fluxo de clientes e veranistas apareceram novas espécies, principalmente o cavalo-marinho”, explica.
De acordo com o biólogo Cléber Mota, a presença de novas espécies na região pôde ocorrer devido à redução da quantidade de efluentes na lagoa, uma vez que o excesso de materiais poluentes prejudica diretamente o desenvolvimento natural do ecossistema. Ele também esclarece que com o investimento em políticas sustentáveis é possível uma harmonia entre os turistas e o reino marinho.
"A preservação do ambiente lagunar é o que mais importa e por isso temos que investir sempre no ecoturismo de maneira sustentável e consciente”, alerta Cléber.
A revitalização da Lagoa de Araruama ainda não foi concluída. Apesar disso, já é possível identificar mudanças significativas nas regiões que cortam a laguna, como o retorno da pesca, que já bateu recordes com a safra anual, e a maior presença de atividades locais nas orlas. O tratamento da água e esgoto constrói benefícios para todos os setores da sociedade e impulsiona o desenvolvimento social, econômico e ambiental.
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