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Do descarte ao recurso: como o NEPAC e o Projeto Retransformar impulsionam a economia circular na Região dos Lagos

Foto do escritor: AECAEC

Em uma época em que práticas sustentáveis se tornam cada vez mais essenciais para enfrentar os desafios ambientais, o projeto NEPAC do Colégio Estadual Miguel Couto e o Projeto Retransformar da Prolagos emergem como soluções complementares para a gestão eficaz de resíduos.


Por: Lara Pimentel e Alêssa Barreto


A sociedade e o descarte

Em um mundo de inteligência artificial, vídeos curtos, fast food, fast fashion, e entre outros, a velocidade tem pautado a maneira que nos relacionamos com as coisas e pessoas. Tudo precisa ser instantâneo, ou perde a nossa atenção. Uma sociedade submersa no imediatismo, entregue às ondas de prazer súbito, sem o pensamento crítico acerca do que circunda suas escolhas.


Perante à essa circunstância, o descarte se torna quase como uma consequência inevitável, afinal, roupas novas precisam ser compradas, novos chocolates precisam ser experimentados, telefones precisam ser atualizados para versões mais modernas, ou estarei perdendo algo, o fenômeno do “fear of missing out”, em português, o medo de estar de fora. Logo, o pensamento crítico no que diz respeito ao destino de todo o lixo produzido devido à busca incessante pelo novo, se torna invisível. O lixo é invisível, afinal, após jogar na lixeira, ele desaparece do meu campo de visão, e assim, deixo de considerá-lo problema meu. Com isso, perpetuo o ciclo de consumo, me sentindo sempre pronto para adquirir mais, sem perceber o impacto crescente desse comportamento sobre o meio ambiente e a sociedade.


No Brasil, cada pessoa gera, em média, 343 quilos de lixo por ano, somando cerca de 80 milhões de toneladas de resíduos no total. No entanto, apenas 4% desse volume é reciclado, de acordo com levantamento da Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema), com base em dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS) de 2023. A maior parte dos resíduos acaba em aterros controlados, lixões a céu aberto, ou espalhada pelas ruas e praças. O lixo, portanto, não é invisível — ele sempre encontra um destino, mas, na maioria das vezes, de forma inadequada, prejudicando o meio ambiente.


Quando descartados de maneira inadequada, os resíduos sólidos causam sérios danos ao meio ambiente e à saúde pública. Eles demoram a se decompor, acumulam-se na natureza e poluem rios, mares e solos, prejudicando a biodiversidade e alterando paisagens. Além disso, esses resíduos atraem vetores de doenças e liberam substâncias nocivas, como gases e chorume, que agravam problemas ambientais, incluindo o aquecimento global. No entanto, quando descartados corretamente, muitos desses materiais, frequentemente vistos como lixo e inúteis, podem ser transformados em recursos valiosos, promovendo uma economia circular e sustentável.


Economia circular e práticas sustentáveis


Diante da cultura do descarte, a economia circular surge como uma abordagem fundamental para reverter os impactos do consumismo e da produção de resíduos. 


Inserida nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, essa metodologia promove a preservação ambiental ao estender a vida útil dos produtos. E assim, reconhece que os resíduos podem ser reintegrados ao início do processo produtivo.


Diferente do sistema linear, baseado na lógica de extração, transformação, uso e descarte, a economia circular busca preservar os recursos naturais, reconhecendo que eles são finitos e que sua gestão adequada reduz a degradação ambiental. Para que essa abordagem seja eficaz, é fundamental a conscientização de todos os setores da sociedade, incluindo indústrias, empresas e residências.


Para promover práticas sustentáveis pautadas nessa abordagem, é fundamental compreender a diferença entre resíduos orgânicos (todo material de origem biológica, como restos de animais ou vegetais) e inorgânicos (produzido pelo homem por meios não-naturais), a separação correta desses materiais é o primeiro passo para uma gestão eficiente. 


Embora o plástico seja amplamente reconhecido como um grande vilão ambiental devido à sua persistência na natureza, os resíduos orgânicos também apresentam sérios riscos quando descartados de forma inadequada e em grandes quantidades. A decomposição descontrolada desses resíduos pode gerar a liberação de gases de efeito estufa, como o metano, além de contribuir para a contaminação do solo e dos recursos hídricos. A gestão adequada dos resíduos orgânicos, como compostagem e biodigestores, é uma solução eficaz para minimizar esses danos e transformar o lixo orgânico em recursos úteis, como adubo e biogás.


Iniciativas locais que promovem a economia circular na Região dos Lagos


Em Cabo Frio, o Colégio Estadual Miguel Couto abriga o projeto NEPAC (Núcleo de Estudos e Pesquisas em Ambientes Costeiros), que vai além da conscientização sobre práticas sustentáveis, promovendo também a aplicação prática dessas iniciativas. Um exemplo é a compostagem de resíduos orgânicos produzidos na escola, transformando restos de alimentos e materiais vegetais em adubo orgânico, que é utilizado nas áreas verdes do colégio. Além disso, o projeto mantém um viveiro onde é realizado o plantio de vegetação nativa, contribuindo para a recuperação de áreas degradadas e para a preservação da biodiversidade local.

Idealizado por professores em meados de 2017, o projeto se consolidou em 2020 e, desde então, o NEPAC atua como um laboratório vivo, onde alunos e professores aprendem e participam ativamente de práticas ambientais sustentáveis. Através de palestras, oficinas e eventos, o projeto envolve a escola em um ciclo contínuo de educação ambiental, que fortalece a compreensão sobre a importância da preservação ambiental e a responsabilidade coletiva. Essas ações, integradas à rotina escolar, fazem do NEPAC uma referência em sustentabilidade na Região dos Lagos, inspirando outras instituições e comunidades a adotarem práticas ecológicas. 


Alunos do projeto NEPAC/ Foto: Lara Pimentel
Aline Mansur, química, educadora ambiental e uma das idealizadoras do projeto, fala um pouco sobre a importância da conscientização da economia circular no ambiente escolar. “Os alunos, professores e funcionários percebem que o que parecia ser lixo, um resíduo, na verdade é um recurso, até mesmo as folhas. Se somos uma escola arborizada, com muitas folhas, isso, a princípio, pode parecer um problema por termos que varrer constantemente. No entanto, as folhas representam uma energia presente na escola. Se mantivermos essa energia no local, preservamos a riqueza que ela possui, capaz de nutrir outras plantas, reduzir a quantidade de material orgânico encaminhado para os lixões e diminuir a produção de gás metano”.
E acrescenta “Enquanto entendermos que o resíduo é lixo, aí está o problema. Quando começarmos a perceber que o resíduo é, na verdade, um recurso, então faremos a mudança necessária. A economia circular depende dessa compreensão, e é essencial que esse conceito esteja presente nas escolas, porque precisa estar internalizado pelos alunos”.

Lixeira de folhas para compostagem/ Foto: Lara Pimentel

Assim como o NEPAC, o Projeto Retransformar, da Prolagos (empresa responsável pelo saneamento básico da região), utiliza o conceito da reutilização de resíduos. Por meio de uma tecnologia inovadora, a empresa transforma o lodo resultante do tratamento de esgoto em biocombustível e biochar, substâncias que podem ser aplicadas na agricultura, recuperação de solos degradados e sequestro de carbono. Essa abordagem não só reduz o volume de resíduos enviados a aterros sanitários, como também contribui diretamente para a economia circular, reaproveitando materiais que, de outra forma, seriam descartados. 


Na Estação de Tratamento de Esgoto de Arraial do Cabo, o lodo é reaproveitado como recurso valioso para a agricultura, a recuperação de solos degradados e o sequestro de carbono. Essa ação contribui para a redução de resíduos e para a preservação ambiental, refletindo o mesmo princípio do NEPAC: o resíduo não é lixo, mas sim um recurso.


De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2017), apenas 5% do lodo sanitário no Brasil é reaproveitado, o que evidencia a necessidade urgente de mais empresas adotarem práticas sustentáveis. Esse cenário ressalta a importância de iniciativas que promovam o uso eficiente desses resíduos.

O projeto de tratamento do lodo por “pirólise lenta à tambor rotativo” acontece na unidade operacional da Prolagos, em parceria com a Águas do Rio, Secretaria Estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação do RJ, Agenersa, Universidade Federal Fluminense (UFF) e Prefeitura de Arraial do Cabo. Essa parceria demonstra a relevância da união entre a educação, ciência e políticas públicas. 


Através do projeto Retransformar, a Prolagos tem reforçado seu compromisso com a sustentabilidade e a inovação. Esse modelo integra a economia circular e as práticas de desenvolvimento sustentável da empresa, traduzindo-se em uma solução que vai além do saneamento básico: ele oferece benefícios ambientais e sociais que buscam melhorar a qualidade de vida das comunidades atendidas, alinhando-se à missão da empresa de promover um impacto positivo para o futuro da região.


Projeto Retransformar/ Foto: Prolagos

O papel do cidadão nas práticas de sustentabilidade local


Apesar de sua importância turística e ambiental, Cabo frio não possui uma política de coleta seletiva estruturada. Atualmente, catadores atuam de forma informal, sem infraestrutura e apoio governamental, o que limita o impacto da reciclagem no município. Dada a gravidade da situação local, é fundamental que os cidadãos compreendam seu papel ativo, cobrando políticas públicas que assegurem a preservação dos recursos e assumindo uma postura de protagonismo em suas ações diárias de consumo. 


"Compostagem é uma educação da nossa casa de separar os resíduos, isso beneficia o catador que vai pegar o resíduo limpo, não tão misturado. Isso chama a atenção da comunidade e das pessoas para cobrar da prefeitura a gestão desse resíduo, nós já estamos ultrapassados pela política nacional de resíduos sólidos, Cabo Frio ainda não adotou.” declara a Professora Aline Mansur, idealizadora do projeto Nepac.

A utilização de práticas sustentáveis nas escolas, empresas, e em residências pode aumentar a conscientização e criar mudanças duradouras. A construção de uma cultura sustentável depende da consciência ecológica de todos para contribuir para um futuro saudável. Somente com essa mobilização, será possível garantir a sustentabilidade do ecossistema e promover um futuro mais equilibrado. 


 

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