Método reduz gastos com reparos e gera menor impacto no cotidiano da população.
Por: Daniel Deroza, Thaís Ximenes e Guilherme Spinelli
A gradual redução no abastecimento de água que atingiu os moradores de Paquetá vem gerando um debate acerca do funcionamento dos serviços de saneamento básico no estado do Rio de Janeiro. Em julho, os habitantes do tradicional destino turístico se depararam com cisternas vazias na parte alta da ilha, condição que, rapidamente, estendeu-se por toda a região. Quase um mês após o início do transtorno — provocado por um vazamento subaquático —, reparos foram realizados pela CEDAE. Contudo, outra fissura foi encontrada. O motivo, de acordo com o Diretor Geral da Associação de Moradores da Ilha de Paquetá (MORENA), Guto Pires, é que o sistema aquífero do bairro data do começo do século 20. “É preciso dizer que isso é recorrente aqui na ilha, é histórico. Paquetá é sinônimo de problema de abastecimento de água”.
Ainda, o representante dos residentes relata que o esquema de tubulações da região está subdimensionado, uma vez que ele foi pensado para a população de décadas atrás. “O sistema é vulnerável. A alegação da CEDAE é que o dano foi causado por alguma rede de arrasto usada por pescadores. Um barquinho qualquer lança uma rede que tem correntes entrelaçadas na teia, que é arrastada pela areia. Então, uma rede de arrasto ser capaz de causar danos na tubulação que abastece um bairro inteiro é a demonstração mais cabal de que o sistema é vulnerável”, ele declara. Ao todo, Paquetá ficou mais de um mês sem fornecimento de água.
Tal problema poderia ter sido evitado com a adoção de manutenções preventivas. É o que explica José Vicente Marino, gerente de Operações de Água da concessionária Prolagos, responsável pelo fornecimento de água e saneamento básico das cidades de Cabo Frio, Búzios, Iguaba Grande, Arraial do Cabo e São Pedro da Aldeia. “Quando nós estamos falando sobre equipamentos de água, o risco é que eles parem [caso as manutenções preventivas não sejam realizadas], levando a uma falta de abastecimento naquele bairro ou até mesmo em várias cidades inteiras. Olha a gravidade disso!”, José alerta. “Corremos o risco gravíssimo de deixar um hospital, uma escola, uma penitenciária pública sem água. Equipamento bom é equipamento funcionando, que só para por causa de manutenção, preventiva ou preditiva”.
Esse segundo método citado pelo engenheiro é outro que pode reduzir a necessidade de reparos e contenção de danos. Ele consiste na instalação de sensores nas máquinas mais caras e pesadas — motores de 500 cavalos de potência, por exemplo — cujos consertos teriam custos muito altos, a fim de alertar sobre possíveis problemas de funcionamento ao detectar vibrações anormais, aumentos de temperatura, presença de fumaça, além de desligar os motores do maquinário, caso identifiquem alguma alteração. “Existe todo um trabalho de inteligência que vai nos avisar o momento correto de fazer a manutenção, ou seja, esse equipamento raramente vai parar por queima ou por quebra”, ele ressalta. Em consequência, as possibilidades de prejuízos à população — como falta de água e interrupção do tratamento de esgoto — são menores.
Mas, além disso, os dois tipos mencionados também apresentam uma vantagem econômica sobre a manutenção corretiva, a qual, segundo conta José, é a pior. “Ela é a mais cara e provoca a parada do sistema de abastecimento, o que faz com que a gente pare de faturar, porque parou de produzir água”, detalha, acrescentando que, em 2019, a Prolagos tinha uma taxa de 30% de manutenções preventivas contra 70% de corretivas. Hoje, o quadro é exatamente oposto, o que possibilita melhor fluxo de trabalho para as equipes e reduz o número de peças inutilizadas ou que demandem reparos de alto custo. “A manutenção corretiva é mais cara porque os estragos são maiores. Com a antecipação dos problemas, inclusive, o tempo de paralisação e falta de água sentida pelo cliente é bem menor”, arremata.
Clique aqui e ouça a fala de José Vicente acerca da MP.
Esse é um ponto importante que José levanta com frequência. “É o principal risco que se corre. Aqui [na Prolagos], se a gente não fizer manutenção na nossa ETA [Estação de Tratamento de Água], há o perigo de desabastecimento de água para 400 ou 500 mil pessoas!”, pondera. E esse grande temor dos profissionais de saneamento é parte, também, da vida de muitos brasileiros, em maior ou menor grau. É o caso de Danton Monteiro, 22 anos, morador de Rio das Ostras, onde, conforme conta, apesar da coleta de lixo e tratamento de esgoto, a distribuição de água não é contínua. “Existe a necessidade de contratar um caminhão de reabastecimento semanalmente ou fazer uma cisterna”. Ele, ainda, destaca o incômodo da situação. “A gente vive em uma incerteza se terá água durante a semana ou não”.
O cenário é similar ao vivido pela jovem de 21 anos Luiza Xavier, de Macaé, que afirma enfrentar faltas de fornecimento ao longo do ano — inclusive devido a vazamentos que impediam a cisterna de encher adequadamente — por mais de uma semana. “É um empecilho, porque traz gastos altos com caminhão-pipa. Simplesmente atrapalha a vida quando não há abastecimento”, assevera. E Guto, de Paquetá, entende bem essa conjuntura. “Quem pode pagar, é obrigado a comprar galão de 20 litros para beber, escovar os dentes e outras necessidades. Sem dúvida nenhuma, a desatenção, por todos os poderes públicos, com um bairro que fica no fundo da baía e tem uma das populações menos numerosas do Rio é notória”, assegura.
E esse descaso citado com procedimentos de manutenção, reformas e ampliação acarreta outras problemáticas, como o desperdício de recursos hídricos. De acordo com dados referentes a 2019 disponibilizados pelo Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), em todo o território nacional, perde-se, em média, 39,2% da água ao longo desse caminho, desde as estações de tratamento até as cisternas e caixas d’água — o que seria equivalente a 7,5 mil piscinas olímpicas cheias de água potável desperdiçadas diariamente, conforme indica o estudo “Perdas de Água Potável (2021, Ano Base 2019): Desafios para a Disponibilidade Hídrica ao Avanço da Eficiência do Saneamento Básico”.
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Um exemplo está na Praia Campista, em Macaé, onde Karina Vasconcellos, de 20 anos, conta haver constantes vazamentos em via pública. “Não costumam resolver o alagamento, só esperam secar. Já fizeram várias obras, mas nenhuma surtiu efeito”, ela salienta, lembrando que, por esse motivo, já é parte da rotina dos que transitam a pé pela área ter que realizar desvios de trajeto para evitar os pontos empoçados. Além disso, recentemente, voltou-se a discutir um possível novo período de escassez de água no Brasil devido à atual crise hídrica — tal qual ocorreu em 2001 —, entretanto, casos como os de Paquetá e da Praia Campista mostram que o baixo nível dos reservatórios não é o único fator que impacta o abastecimento no país.
Pandemia seca
Enquanto desponta no horizonte uma — provável — nova insuficiência hídrica, a população continua enfrentando velhos problemas estruturais que também são responsáveis pelas falhas no abastecimento de água em diversas regiões. Tudo isso em meio a uma pandemia, na qual um dos principais meios de prevenção que regem a vida cotidiana é a higiene, que exige o uso quase constante do recurso natural em escassez. Ou seja, como se já não bastassem o temor e a tensão provocados pelo coronavírus, as pessoas atingidas pela falta de água estão sob maior pressão ainda. “Um terror! Esquecendo da pandemia, já é um terror. Com a pandemia, é um terror ao quadrado!”, decreta Guto.
E o impacto da crise sanitária também chegou aos responsáveis pelos serviços de saneamento. Com o aumento da demanda, as concessionárias de tratamento e distribuição tiveram que repensar e reestruturar seus esquemas de trabalho em um período de tempo muito curto. “Os horários de maior consumo de água, que eram pela manhã até a hora do almoço e no início da noite, mudaram. Passou a ser o dia inteiro, então, nós tivemos que mudar o horário da produção, bombear mais água”, conta José Vicente, acrescentando que as categorias residenciais foram priorizadas e, em contrapartida, o fornecimento para comércios, hotéis e fábricas foi praticamente zerado.
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Apesar disso, nas regiões que já sofriam com problemas de abastecimento — como Paquetá —, não foi possível escapar dos transtornos causados pelas más condições dos sistemas distributivos. “Você não ter água para fazer comida, para higiene, para beber, para escoar os vasos sanitários… É absolutamente um filme de terror!”, Guto enumera, complementando que a demora na realização de reparos piora ainda mais a situação. “Enquanto eles estão fazendo reparos, com mergulhadores, procurando onde está o problema, o reservatório se esvazia, a água começa a ter pouca pressão, a faltar em algumas áreas, algumas ruas… Até que a ilha inteira fica sem água”.
O diretor geral da MORENA faz questão de enfatizar mais uma vez o desconforto causado pela falta de vazão dos sanitários durante o período de falta d’água — que, em alguns pontos do bairro, chegou a durar dois meses, segundo informa. “A gente tem que tentar pegar água com algum vizinho que ainda tenha alguma coisa na cisterna, ou comprar um galão de 20 litros porque o vaso já está abarrotado de fezes”, ele lamenta ao expor mais uma problemática atual: além da falta de água, da demora nos consertos e da pandemia, ainda há a preocupação com as consequências do não escoamento de dejetos, que pode ocasionar outras enfermidades que não a Covid.
E o esgoto?
Assim como acontece com a distribuição de água, a falta de planejamento preventivo — que acarreta no uso exclusivo de manutenções corretivas — também tem consequências graves nos sistemas de esgotamento. E, diferente do que se pensa, existem muitos fatores além de um simples vazamento que podem gerar transtornos, como explica Samea Hussein, supervisora das Estações de Tratamento de Esgoto (ETE) da Prolagos. “Como a gente está em uma região litorânea, tem muita intrusão de areia; lixo por falta de consciência da própria população, além de gordura também”, ela lista, acrescentando que, por esses motivos, a rotina de manutenção da região é sempre em regime de prevenção.
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Conforme explica, tudo que vai para a rede acaba em uma ETE, a qual é preparada para tratar, especificamente, esgoto, então qualquer elemento diferente que entre na estação é prejudicial ao tratamento. Por isso, o cuidado com a etapa que antecede esse processo — preocupação que aumenta na alta temporada, durante o verão, quando as cidades da região recebem um grande contingente de turistas, afinal, uma obstrução nesse sistema pode ocasionar um vazamento, configurando dano ambiental. O apontamento feito por Samea é corroborado por José Vicente. “Quando a manutenção da rede de esgoto não é realizada, pode ocorrer um extravasamento e o esgoto não pode voltar para a natureza sem o devido tratamento, de acordo com as determinações do Ministério da Saúde, caso contrário, é crime ambiental”, frisa.
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E, além do mal-estar causado por um vazamento desse tipo, a contaminação de solos e mananciais pode provocar uma série de consequências para a saúde, como infestações de pragas — ratos e baratas, por exemplo — e surtos de doenças diarreicas, febre tifóide, hepatite A, e várias outras. Ou seja, de acordo com um estudo produzido pelo Instituto Trata Brasil, um sistema de saneamento básico eficiente diminui os custos do governo com a Saúde Pública e medicina curativa; ainda, reduz as taxas de evasão escolar e gera empregos nas obras de infraestrutura, aquecendo a economia da região. No entanto, o Brasil ainda tem um longo caminho para expandir o saneamento básico a todos os seus cidadãos.
Rumo à universalização
Apesar de o acesso ao saneamento básico ser um direito previsto na Constituição e de o Marco Legal de 2007 objetivar um índice de 99% da população contemplada por esses serviços básicos até o ano de 2033, a realidade mostra que o país ainda está longe dessa meta, uma vez que apenas 83,7% das residências recebem água continuamente, 54,1% do esgoto é coletado e, destes, só 49,1% recebem tratamento, segundo levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Para Samea, essa deve ser uma caminhada conjunta, entre governo, empresas e sociedade. “O saneamento básico é vida! A gente tem que pensar no meio ambiente também. Não só no Brasil, mas no geral, o saneamento tem que estar mais visado”, opina.
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E tanto Samea quanto José Vicente concordam que a população também tem um papel importante nesse processo de manutenção preventiva que beneficia a todos. No que diz respeito à água, o engenheiro destaca que, em especial, no presente contexto, deve-se evitar o desperdício. “A recomendação é que se faça o uso inteligente desse recurso!”, alerta. Já a supervisora encara a tarefa como uma obrigação coletiva. “Quando a gente joga lixo na rua, esse lixo vai procurando o caminho mais fácil, vai cair em bueiro, em boca-de-lobo, e entupir aquela rede”, ela detalha, destacando, também a importância de se ter uma caixa de gordura nas casas, para impedir que óleos e graxas — que endurecem com o tempo — obstruam as redes.
Para prestar esse serviço de conscientização, a Prolagos desenvolveu o projeto Afluentes, que se alia às lideranças comunitárias para promover a educação ambiental. “Em relação ao esgoto, a gente também tem um programa chamado ‘De Olho no Óleo’ para a coleta de óleo de cozinha usado. Então, a gente tem parceria com associações de moradores, com as prefeituras, para a distribuição de pontos de coleta”, revela Janaína Novellino, assessora de comunicação da Prolagos, explicando, também, que o engajamento da comunidade é fundamental para o desenvolvimento de ações como essa. “Agora, por exemplo, a gente está fazendo uma gincana com as escolas municipais e a que arrecadar mais óleo vai receber um prêmio. É uma forma de conscientizar a população em relação a isso”.
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