Por: Caio Gervazoni, Lenon Serieiro e Lucas Gonçalves
A Lagoa da Passagem, localizada em Cabo Frio, segue imprópria para uso. A última análise de balneabilidade feita pelo Instituto Estadual do Ambiente (Inea) revela a presença de poluentes nas águas do local.
A água inutilizável para banho e o mau cheiro pode afastar turistas e impactar a vida de pescadores e trabalhadores que dali tiram o seu sustento.
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Uma dessas pessoas que convive com a Lagoa da Passagem e seus desafios, é o instrutor e atleta de canoa havaiana Pedro Henrique, mais conhecido como batata. Ele conta um pouco sobre a importância de estar conectado com a natureza e como isso influencia na sua vida;
“Nesses quatro anos e meio que eu estou trabalhando nessa área, eu volto muito pra parte ecológica e de sustentabilidade para a educação da galera na área marítima, porque quem vai remar se apaixona, curte muito o ambiente, é relaxante. Então eu uso isso para trabalhar com a galera. Uma conscientização de que a gente tem que tomar cuidado, tomar conta do nosso mar, das nossas praias.”
O Batata também comenta a atitude que toma para atentar seus alunos e amigos ao meio ambiente da região:
“A gente sai do terminal de transatlântico, vai pra Ilha do Papagaio. Às vezes a gente vai pra Arraial remando, aí o que acontece nesse meio do caminho? A gente encontra muito lixo e eu mostro pra galera: ‘Gente, vocês acham lindo?’ A gente vê baleia, a gente vê golfinho, tartaruga então nem se fala. E nesse meio tem muito lixo e a gente fala: ‘Imagina isso tudo sem lixo, então vamos tomar mais cuidado’. E eu vou sempre pregando isso pra galera.“
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Segundo o biólogo e laboratorista de Ecologia e Microbiologia Ambiental do IFF Cabo Frio, Victor Hugo Santos, além do despejo do lixo, a causa da impropriedade das águas da Lagoa podem ser também naturais:
“Existe um processo natural chamado eutrofização que acontece em lagos e outros corpos hídricos, Eutrofização é um termo do grego que significa bem nutrido, ou seja, a eutrofização é o excesso de nutrientes na água, e ela acontece a partir do acúmulo de materiais orgânicos. Isso se dá naturalmente. Às vezes, o animal ou planta morre já dentro da água ou cai lá e vão ser consumidos pelas bactérias. O que acontece é que essas bactérias vão se proliferar muito, competindo por recurso com os outros peixes e animais aquáticos, que acabam morrendo por falta de oxigênio consumido pelas bactérias, o que pode ser ainda mais matéria orgânica.
Isso costuma levar centenas ou até mais anos com o despejo de lixo nas águas. As bactérias têm uma infinidade de nutrientes para se replicar e elas vão consumir esses nutrientes, vão liberar sais minerais na água, vão consumir o nutriente e o recurso de outros peixes. E esses sais minerais liberados na água vão aflorar a proliferação de algas.
"Essas algas se proliferando, podem estar obstruindo a limpidez da água, impedindo a entrada de sol ali, o que vai impedir ainda mais a geração de oxigênio e a diluição de oxigênio na água, dificultando mais ainda a vida de peixes, até mais resistente do que os que pereceram primeiro. Isso acelera muito o processo de ultra fixação e pode ser dito como a morte desse lago, desse rio, que é quando a gente vê aquela água marrom poluída que tem um tipo de vida que não sejam bactérias, fungos e coisas desse tipo de se manterem ali.”
Ainda segundo o biólogo, existem ações que podem ser tomadas para tratar e preservar os lagos:
“Nós podemos estar sempre impedindo o despejo de lixo orgânico para que a vida útil dos lagos seja sempre a maior possível e para o consumo é sempre recomendado que a água seja tratada e analisada por químicos e biólogos para garantir que tenho qualidades físico químicas ideais para o nosso organismo, para alertar do risco do consumo de águas contaminadas.”
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Apesar de ser um ponto apreciado por turistas e moradores da cidade, a Lagoa da Passagem é um dos dois locais de Cabo Frio monitorados pelo INEA considerados impróprios para banho em boletim publicado em outubro de 2024.
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Procurada, a Prolagos ressaltou o investimento no saneamento da Lagoa de Araruama e destacou a coleta na Passagem e na Praia do Siqueira.
Confira a nota completa:
“Nos últimos 26 anos, a Prolagos investiu R$ 1,4 bilhão em saneamento, valor duas vezes maior que a média nacional de investimento por habitante, segundo o Trata Brasil. Os investimentos possibilitaram a universalização da região, com cobertura passando de zero para 90%, sendo 100% do esgoto coletado tratado, o que resultou na melhoria geral na qualidade da Lagoa de Araruama.
Para que isso ocorresse foi feita a implantação de um sistema que conta com 38 Km de um cinturão coletor no entorno da laguna, sete Estações de Tratamento com capacidade para tratar mais de 100 milhões de litros de esgoto por dia, e outras unidades de bombeamento, que permitem que todo o esgoto seja transformado em efluente tratado, a fim de que seja devolvido para o corpo hídrico sem impacto para o meio ambiente.
O atual modelo de esgotamento sanitário adotado na região, conhecido como coleta em tempo seco, foi adotado nos anos 2000 para promover a recuperação da laguna no menor tempo possível, visto que a região possui uma baixa incidência de chuvas e isso proporciona que o sistema funcione adequadamente, interceptando a rede de drenagem de chuva e direcionando para as estações de tratamento de cada município. A recuperação da Lagoa tem propiciado um ciclo de desenvolvimento das atividades econômicas, turísticas e esportivas, gerando trabalho e renda para as comunidades que dela dependem.
No bairro da Passagem, existe uma rede coletora às margens do Canal do Itajuru. Como parte do modelo de sistema utilizado atualmente, de coleta em tempo seco, essa rede capta o que chega das redes de drenagem e direciona para a ETE da Praia do Siqueira.
Já no caso da Praia do Siqueira, historicamente, quando chove, o bairro recebe a contribuição de rede de drenagem de toda a área central de Cabo Frio, arrastando os resíduos domésticos e das ruas, o que acaba resultando no acúmulo de material natural naquele local, que é um ponto de difícil renovação de água.
Para complementar o sistema já existente que blinda a Lagoa de Araruama, a concessionária implantou cerca de 3km de rede separativa de esgoto no bairro, para atender os mais de 1.500 moradores. Além disso, neste ano, foi iniciada a obra de modernização da Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) situada na Praia do Siqueira, em Cabo Frio, que ao fim da obra terá aumento da capacidade de tratamento em 50%.”
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